Riscos da Prática Médica
Autores: Flavio Moura de Agosto, Rui Peixoto e Ronaldo Bordin
Prefácio: Moacyr Scliar
Edirora: Da Casa
1998, Porto Alegre
A presente obra representa um marco na literatura médica de nosso país. Em primeiro lugar, pelo tema que aborda. Quem são os médicos? Que risco os ameaçam no exercício da profissão? Como reagem a estes riscos?
Questões mais pertinentes e que, no entanto, só recentemente começaram a chamar a atenção. Os primeiros documentos referentes ao desempenho médico – o código de Hammurabi, o juramento de Hipócrates – são eminentemente prescritivos: dizem o que o doutor deve fazer, ameaçam com punições em caso de transgressão. Não encontraremos aí um exame da condição médica, da pessoa atrás do profissional. O fator humano na medicina permaneceu, até recentemente, como a incógnita da equação. Que, por isto, não foi adequadamente resolvida. Os resultados, por vezes, são catastróficos, tanto para o paciente como para o profissional.
( … ) o segundo mérito deste livro: o que temos aqui é uma verdadeira epidemiologia da condição médica. Números nos revelam o perfil do médico, falam-nos dos problemas que enfrenta. Mais que isto, encontramos nestas páginas uma apurada e minuciosa análise da atividade médica e do cenário em que tal atividade ocorre. Um cenário que se caracteriza pelas rápidas e drásticas mudanças.
A nova conjuntura coloca uma série de desafios, especialmente no plano ético. Que agora também se apresenta diferente. Já não se trata de regulamentar a relação com os pacientes, ou de colegas entre si. Questões inquietantes ocorrem. Deve o médico resignar-se a trabalhar em locais onde lhe faltam as condições mínimas? Qual o significado da chamada medicina defensiva? Como deve o médico portar-se diante de novas relações de trabalho criadas por um mercado sempre cambiante, no qual custos e lucros – passaram a fazer parte da numerologia profissional, tanto quanto a taxa de glicose no sangue dos pacientes?
Esta obra não tem, certamente, resposta para todas estas indagações. Mas o simples fato de ter trazido o tema para a discussão em nosso meio representa um grande mérito. Parafraseando o “médico, cura-te a ti mesmo”, ela propõe – e nisto traz uma mensagem cuja transcendência os filósofos gregos assinalaram – “médico, conhece-te a ti mesmo”. O conhecimento, ou seja, o diagnóstico, é o primeiro passo para uma boa conduta terapêutica. Mas este livro não apenas aumenta os nossos conhecimentos. Ele nos faz mais médicos.
Moacyr Scliar


Escrito por Cardiologista Rui Peixoto 